“Quando o casamento adoece, quem precisa ser salvo primeiro?”
Às vezes, o que chega até a terapia não é apenas uma crise no relacionamento.
O que chega é uma pessoa profundamente cansada, triste, sem forças, tentando sobreviver dentro de uma relação que deixou de ser um lugar de cuidado.
Quero começar dizendo algo muito importante:
sofrer dentro de um relacionamento não é normal, não é fraqueza e não é falta de amor.
Quando uma pessoa está deprimida, medicada, emocionalmente esgotada, vivendo em quartos separados, sem diálogo, sem afeto, sem segurança emocional ou financeira, isso já não é apenas um conflito de casal. É um sinal de que algo essencial foi rompido.
Um relacionamento saudável não é aquele onde nunca há problemas, mas aquele onde existe presença, responsabilidade afetiva e cuidado mútuo. Quando um dos dois se ausenta emocionalmente — se refugia no álcool, nos jogos, no silêncio, na indiferença — o outro acaba carregando sozinho o peso da relação. E ninguém consegue sustentar um casamento sozinho sem adoecer.
Outro ponto muito importante:
intimidade não pode gerar dor, medo ou silenciamento.
Quando alguém se submete a uma relação sexual sentindo dor, sangramento ou desconforto, com medo de desagradar, de ser rejeitada ou de perder o outro, isso precisa ser olhado com muita seriedade. Amor não machuca o corpo, não ignora limites, não transforma o próprio corpo em moeda de troca para manter alguém por perto.
Também é preciso falar sobre dependência emocional e financeira. Quando alguém permanece em um relacionamento apenas porque não se sente segura para sair, porque não tem recursos, apoio ou chão, isso não é escolha livre. E sem liberdade, não existe vínculo saudável.
Na terapia, é fundamental dizer com clareza:
nem toda relação precisa ser salva a qualquer custo.
Antes de salvar um casamento, é preciso salvar as pessoas que estão dentro dele.
O papel da terapia não é convencer ninguém a ficar, nem pressionar ninguém a ir embora. O papel da terapia é ajudar cada pessoa a recuperar sua voz, sua dignidade, sua saúde emocional e sua capacidade de decidir com consciência e segurança.
Relacionamentos só podem ser reconstruídos quando existe responsabilidade dos dois lados. Pedido de desculpas sem mudança de comportamento não sustenta um recomeço. Amor verdadeiro aparece em atitudes consistentes, não apenas em palavras.
Se você que está ouvindo este vídeo se identifica com esse tipo de sofrimento, saiba:
você não está exagerando, você não está fraca, e você não precisa suportar tudo sozinha.
Cuidar de si não é egoísmo.
Estabelecer limites não é falta de amor.
Buscar ajuda não é fracasso.
Às vezes, o primeiro passo da terapia não é reconstruir o relacionamento, mas reconstruir a pessoa que se perdeu tentando manter o relacionamento.
E só a partir desse lugar de cuidado, verdade e fortalecimento interior é que qualquer decisão — de permanecer, de mudar ou de partir — pode ser realmente saudável.
DR FERNANDO TADEU BARDUZZI TAVARES


