Quando A Dor Parece Roubar O Sentido Da Vida
Há momentos na vida em que a dor parece roubar o sentido da vida e ela não chega de mansinho. Ela invade, leva nomes, histórias, projetos, afetos. Foi assim com tantas pessoas. Conheci uma paciente que saiu de sua terra cheia de expectativas e voltou de mãos vazias. Perdeu o marido, perdeu os filhos, perdeu o chão. A mulher que partiu com esperança retorna dizendo, como Rute na biblia: “Não me chamem mais tantas pessoas (minha doçura), chamem-me Mara (amargura), pois o Todo-Poderoso me encheu de aflição” (cf. Rt 1,20). É claro que Deus não nos enche de aflição, mas elas muitas vezes vem das nossas má escolhas ou da maldade dos homens.
Quantas pessoas hoje caminham com esse mesmo sentimento? Gente que perdeu alguém que amava, que viu um casamento se desfazer, que foi surpreendida por uma doença, por dificuldades financeiras, por solidão ou por um futuro que já não parece promissor. A história de tantas pessoas não é antiga demais: ela é atual, profundamente humana e espiritualmente reveladora.
A dor, quando não é acolhida, tende a redefinir nossa identidade. tantas pessoas passam a se enxergar apenas a partir daquilo que perdeu. Sua fala é dura, honesta, sem máscaras. A Bíblia não censura sua queixa. Pelo contrário, a registra. Isso nos ensina algo precioso: Deus não se ofende com a nossa dor nomeada. Ele não exige discursos piedosos quando o coração está em ruínas.
Se você se sente como tantas pessoas, talvez tenha deixado de se reconhecer. Talvez a alegria, a fé serena ou os sonhos pareçam coisas do passado. Saiba: isso não é falta de fé. É humanidade ferida. Deus permanece mesmo quando só conseguimos chamá-Lo de longe.
Tantas pessoas decidem voltar. Voltam vazias, mas voltam. Esse movimento é decisivo. A dor tende a nos fechar, a nos isolar, a nos convencer de que ninguém pode compreender o que estamos vivendo. Contudo, a salvação, muitas vezes, começa num simples passo de retorno.
Rute, torna-se sinal de Deus no caminho de tantas pessoas. Sem discursos teológicos, apenas com presença fiel: “Onde fores, irei; teu povo será o meu povo, e teu Deus será o meu Deus” (Rt 1,16). Deus responde à dor de tantas pessoas não com explicações, mas com uma pessoa que permanece.
Se você sofre, não caminhe sozinho. Permita-se ser acompanhado. Às vezes, Deus se faz próximo através de alguém simples, silencioso, constante.
Tantas pessoas acredita que Deus a abandonou. Mas Deus está agindo nos bastidores. Ele conduz encontros, abre campos, prepara redenção. O tempo da dor não é o tempo da ausência de Deus, mas o tempo do Seu trabalho oculto.
Há fases da vida em que não vemos frutos, apenas perdas. Porém, como na terra durante o inverno, a raiz continua viva. Deus age em silêncio, enquanto o coração aprende a sobreviver.
Se hoje você não consegue enxergar sentido, não conclua que Deus parou de agir. Talvez Ele esteja preparando algo que ainda não cabe no seu agora.
Tantas pessoas voltam vazias, mas terminam a história com uma criança nos braços. O filho de Rute não nasce de seu ventre, mas nasce para o seu colo. Deus não devolve a tantas pessoas o que ela perdeu, mas lhe oferece algo novo, inesperado, maior do que sua imaginação ferida.
Isso não diminui a dor do passado, mas a transfigura. A Bíblia diz que as mulheres de Belém proclamam: “Um filho nasceu a tantas pessoas” (Rt 4,17). Aquela que se dizia Mara volta a ser reconhecida como tantas pessoas.
Deus não apaga a história sofrida, mas pode transformá-la em fonte de vida para outros. Muitas pessoas se tornam mais humanas, mais compassivas, mais espirituais justamente depois de terem atravessado o vale da perda.
Se você está vivendo um tempo de perdas, saiba: sua história ainda não terminou. Não dê ao sofrimento a última palavra. Deus escreve finais que o coração ferido não consegue imaginar.
Permita-se lamentar, mas não caminhe sozinho. Dê pequenos passos de retorno. Confie que, mesmo quando você se sente vazio, Deus continua sendo fecundo. Ele transforma a amargura em maturidade, a perda em profundidade, o luto em fonte de vida.
Como tantas pessoas, talvez hoje você só consiga dizer: “Estou vazia”. Deus, porém, olha para você e diz: “Ainda há futuro”.
E quando tudo parecer silêncio, lembre-se: o Deus que age na história de tantas pessoas é o mesmo que continua agindo na sua.
DR. FERNANDO TADEU BARDUZZI TAVARES
PSICOTERAPUTA E TEÓLOGO


