O QUE É O ABUSO EMOCIONAL E COMO SUPERÁ-LO
Muitas pessoas vivem relacionamentos que as machucam profundamente, mas têm dificuldade de reconhecer isso. Não porque sejam fracas, mas porque o abuso emocional costuma ser silencioso, gradual e confuso. Ele não começa com gritos ou agressões evidentes; começa quando alguém vai, pouco a pouco, perdendo a própria voz, a própria paz e até a própria identidade.
Na vida cristã, aprendemos a amar, a perdoar e a servir. No entanto, esses valores, quando mal compreendidos, podem ser usados para justificar situações que Deus jamais desejou para seus filhos. Deus não nos chama a suportar abusos, mas a viver na verdade e na liberdade.
1. Quando o amor vira medo
Um dos primeiros sinais de que algo não vai bem é o medo constante. Medo de falar, de discordar, de tomar decisões simples. A pessoa passa a “pisar em ovos”, tentando evitar conflitos, explosões ou rejeições. Onde há amor verdadeiro, há segurança. Onde há medo constante, algo precisa ser revisto.
A Palavra de Deus nos recorda:
“No amor não há medo; ao contrário, o perfeito amor lança fora o medo” (1Jo 4,18).
Se o relacionamento produz ansiedade contínua, culpa excessiva e insegurança, ele não está gerando vida.
2. A culpa que não vem de Deus
No abuso emocional, a pessoa passa a acreditar que tudo é culpa sua. Se o outro se irrita, explode ou desrespeita, ela pensa: “Eu provoquei isso”, “Se eu fosse melhor, isso não aconteceria”. Aos poucos, carrega um peso que não lhe pertence.
Deus corrige com amor, nunca com humilhação. A culpa que paralisa, confunde e destrói a dignidade não vem do Espírito Santo, mas de uma relação adoecida.
Jesus disse:
“A verdade vos libertará” (Jo 8,32).
A verdade é esta: cada pessoa é responsável por seus próprios sentimentos e atitudes.
3. O ciclo que aprisiona
Muitos relacionamentos abusivos seguem um ciclo doloroso: momentos de tensão e agressividade são seguidos por fases de aparente carinho, pedidos de desculpa ou promessas de mudança. Esse “tempo bom” gera esperança, mas não transformação real. Depois, tudo recomeça.
É importante compreender: o carinho que vem após o abuso não apaga a ferida. Amor não machuca para depois compensar.
4. Quando a pessoa perde a si mesma
Um sinal profundo de sofrimento é quando alguém já não sabe mais quem é. Vive tentando agradar, mudar, se adaptar, enquanto suas necessidades, sentimentos e dores são ignorados ou desvalorizados. Aos poucos, a pessoa se apaga para manter a relação.
Mas Deus não nos criou para desaparecer no amor. Pelo contrário, Ele nos chama pelo nome e nos devolve a nós mesmos.
“Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10).
5. O silêncio que adoece
O abuso emocional cresce no silêncio. Muitas pessoas deixam de falar com amigos, familiares ou pessoas da Igreja por vergonha ou medo de julgamento. Outras protegem o relacionamento, mesmo estando feridas.
Mas a cura começa quando a luz entra. Falar com alguém seguro — um sacerdote, um acompanhante espiritual, um terapeuta, um amigo maduro — não é traição, é cuidado consigo mesmo.
6. O limite também é espiritual
Colocar limites não é falta de amor, nem falta de fé. Jesus colocou limites, se retirou quando necessário e não permitiu ser manipulado. O limite protege aquilo que é sagrado: a vida, a dignidade e o coração.
Amar não é aceitar tudo. Amar também é dizer: “isso me fere”, “isso não é justo”, “isso não pode continuar assim”.
7. Deus não se agrada do sofrimento disfarçado de virtude
Muitas pessoas permanecem em relações abusivas acreditando que estão sendo fiéis, pacientes ou obedientes a Deus. Mas Deus não se alegra com o sofrimento que destrói a pessoa por dentro. Ele não pede que ninguém se sacrifique perdendo a própria dignidade.
O verdadeiro amor cristão gera frutos do Espírito:
“amor, alegria, paz, paciência, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio” (Gl 5,22).
Se esses frutos não existem, algo precisa ser discernido com seriedade.
8. Caminho de libertação e reconstrução
Libertar-se de um abuso emocional é um processo. Começa dentro do coração, quando a pessoa reconhece que aquilo não é amor. Continua com apoio, oração, acompanhamento e decisões prudentes. Envolve luto, dor, mas também renascimento.
Deus caminha com quem sofre. Ele não apressa o tempo, mas sustenta cada passo.
CONCLUSÃO
Relacionamentos saudáveis aproximam a pessoa de Deus e de si mesma. Onde o amor é verdadeiro, a pessoa cresce, floresce e descansa. Onde há abuso emocional, o Espírito convida à verdade, à liberdade e à vida.
Se algo dentro de você se reconheceu nessas palavras, saiba: Deus não te condena, Ele te chama para fora do cativeiro.
“Foi para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1).
DR. FERNANDO TADEU BARDUZZI TAVARES
DR. FERNANDO TADEU BARDUZZI TAVARES


