A Cura Interior e o Propósito de Vida
“Depois disso, o Senhor designou outros setenta e dois e os enviou dois a dois, à sua frente, a todas as cidades e lugares para onde ele haveria de ir. E dizia-lhes: ‘A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos. Peçam, pois, ao Senhor da colheita que envie trabalhadores para a sua colheita… Em qualquer casa em que entrarem, digam primeiro: ‘A paz esteja nesta casa’. (…) Curem os doentes que nela houver e digam-lhes: ‘O Reino de Deus está próximo de vocês’.”
Ontem, celebramos a conversão de Paulo, aquele que, ao ser derrubado do cavalo de suas próprias certezas, descobriu que a saúde mental e a espiritualidade caminham juntas quando nos rendemos à verdade. Hoje, celebramos o fruto maduro desse processo: os santos Timóteo e Tito. Eles não são apenas figuras históricas; são o símbolo de como o propósito de vida pode florescer a partir do encontro com alguém que já percorreu o caminho da cura interior.
Paulo encontrou Timóteo em Listra. Ele era o que hoje chamaríamos de alguém com uma identidade fragmentada: filho de uma judia e de um pagão. No consultório da alma, sabemos que essa “mistura” muitas vezes gera um sentimento de não pertencimento. No entanto, ao ouvir Paulo, Timóteo não encontra apenas uma nova religião, mas uma nova relação.
A cura interior começa quando deixamos de ser definidos pelas nossas feridas e passamos a ser definidos pela nossa filiação divina. Paulo torna-se para ele um mentor, um pai espiritual que o ajuda a integrar sua história. Timóteo e Tito tornam-se parceiros de missão, provando que ninguém se cura sozinho. A saúde mental sólida nasce na comunidade, no “dois a dois” que Jesus instituiu.
No texto de Lucas, Jesus envia os setenta e dois com uma ordem específica: “Digam primeiro: a paz esteja nesta casa”. Como terapeuta, vejo aqui a base da regulação emocional. Antes de qualquer doutrina ou regra, vem a paz. O Reino de Deus não se impõe pelo medo ou pelo controle — que são as raízes da ansiedade — mas pela oferta de uma presença que tranquiliza.
Para encontrar o propósito de vida, precisamos primeiro descer aos porões da nossa casa interna e declarar essa paz. Quando Jesus diz “Curem os doentes”, Ele não está falando apenas de enfermidades físicas. Ele fala da cura das emoções, da libertação da culpa, do abandono do estresse crônico e da superação do luto. O evangelizador é, essencialmente, um agente de saúde mental que aponta para a beleza de Deus.
O Evangelho só se torna credível quando o levamos a sério a ponto de permitir que ele nos mude “inexoravelmente”. Isso exige transparência radical. Paulo, Timóteo e Tito foram homens que não esconderam suas fraquezas. Paulo escreve cartas a eles falando de suas angústias e pressões.
No caminho da autocompaixão, entendemos que nossa fé é devedora da fé de alguém que veio antes. Alguém que teve a coragem de ser vulnerável conosco. A reconciliação com o nosso passado e com as nossas sombras é o que nos torna capazes de dizer aos outros: “O Reino de Deus está próximo”. Próximo não no sentido de tempo, mas de distância: ele está dentro de você, esperando para ser despertado pela esperança.
Hoje, quando deixamos que a presença de Cristo mude nossa vida, nossas palavras tornam-se remédio. O mundo está cheio de pessoas que sofrem de solidão e falta de sentido. O seu propósito de vida pode ser exatamente o de ser um Timóteo ou um Tito para alguém que ainda está no escuro.
A cura interior é um processo contínuo de conversão do olhar. Que possamos, através do nosso equilíbrio, da nossa paz e da nossa fé, ser instrumentos para que outros encontrem a beleza de Deus. Que a sua vida seja, hoje, o fruto da cura que você um dia recebeu.
Dr. Fernando Tadeu Barduzzi Tavares
Psicoterapeuta e Teólogo


