O Mistério de Ver e Deixar Ser
O maior pecado contra o amor não é o ódio, que ainda é uma forma de vínculo, mas a indiferença. Atendendo casais e observando a vida espiritual, percebo que um casal começa a morrer não quando briga, mas quando um deixa de “ver” o outro. Quando o olhar se torna opaco e o cônjuge passa a ser apenas uma função na engrenagem do quotidiano, aquele que deve fazer algo.
Diz o Evangelho que o “olho é a lâmpada do corpo”. Se o teu olhar é bom, tudo em ti será luz. No casamento, o seu olhar tem o poder de criar o outro. Quando você elogia, quando você observa, quando você reconhece o esforço, você diz com suas palavras e gestos: “Eu vejo você, você existe para mim”.
Inversamente, a negligência é um “quarto escuro”. Quando ignoramos o outro em favor de nossos ídolos, seja o trabalho, o sucesso ou as distrações, empurramos quem amamos para o isolamento.
Muitos buscam no outro o preenchimento de suas próprias carências. Isso não é amor, é consumo. O amor verdadeiro é hospitalidade. É abrir a casa do próprio coração para que o outro entre e se sinta seguro, sem ser julgado ou moldado conforme o nosso desejo.
Se o seu “controle” impede que o outro respire, ou se a sua “ausência” faz o outro desaparecer, você não está numa relação; você está num monólogo. O amor exige o “sair de si” para encontrar o mistério do outro.
A intimidade não é um dever mecânico, mas o ápice de uma aliança. Quando o corpo se nega, ele apenas comunica o que a alma já gritou: “Não me sinto seguro aqui”. Para que o corpo se entregue, o coração precisa de ser visto. Não se pode exigir o fruto (que é a intimidade) se a raiz (que é a atenção) está seca.
Para os casais que sentem o peso da distância, o caminho começa com uma pergunta honesta:
- Onde estou escondido, que não te vejo?
- Em qual “quarto escuro” eu te coloquei com o meu silêncio?
O amor é o exercício diário de tirar o outro da invisibilidade. É trocar o “eu” pelo “nós”, sem anular a beleza da individualidade. Reconciliar-se é decidir, todas as manhãs, que a pessoa ao seu lado é mais importante que as suas distrações ou que o seu orgulho.
É nas frestas da nossa fraqueza que a luz do perdão entra. Que o vosso casamento seja um jardim onde cada um pode crescer porque se sente amado, olhado e, finalmente, livre.
Dr. Fernando Tadeu Barduzzi Tavares
Psicoterapeuta e Teólogo


