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Da Opressão à Aliança: O Despertar do Transe Conjugal

Da Opressão à Aliança: O Despertar do Transe Conjugal

No consultório, frequentemente me deparo com uma dinâmica invisível e devastadora: casais que, embora vivam sob o mesmo teto, habitam universos morais opostos. Um parceiro assume o papel de detentor da verdade, enquanto o outro, para sobreviver, entra em um estado de transe emocional, onde sua percepção da realidade é constantemente colocada em dúvida.

A base de muitos conflitos não é a falta de amor, mas a idolatria do ego. Quando um dos cônjuges estabelece que a paz do lar depende da obediência cega aos seus padrões, sejam eles de limpeza, comportamento social ou até de como o outro deve sentir, ele deixa de ser um parceiro para se tornar um legislador.

Nesta dinâmica, o parceiro que tenta agradar acaba perdendo a própria voz. Ele começa a “pisar em ovos”, medindo cada palavra, com medo de que qualquer vírgula fora do lugar desencadeie um ataque ou, pior, um longo discurso de vitimização estratégica.

Um dos padrões mais dolorosos é quando o parceiro que exerce o controle usa a linguagem da dor para manter o domínio. Frases como “Eu nunca sou o suficiente para você” ou “Você está me deixando doente” são usadas para interromper qualquer tentativa legítima do outro de expressar suas necessidades. Você sabe que algo está errado, mas é convencido, através da culpa e da insistência do outro, de que o problema é a sua “falta de paciência” ou a sua “saúde mental”. A vítima passa a pedir desculpas por ser agredida.

A teologia recorda-nos que o Reino de Deus é o lugar da liberdade. Onde há medo, não há Espírito. O processo de cura começa quando o parceiro “oprimido” desperta desse transe e reconhece que sua identidade não pertence ao cônjuge, mas a Deus.

A cura exige o fim do isolamento. O controle muitas vezes afasta o casal da família e dos amigos, pois o isolamento é o solo onde a manipulação cresce sem ser questionada. Retomar os vínculos é retomar a sanidade.

Para o casal que deseja sair deste Egito emocional, são necessários passos de metanoia (ou seja, mudança de mente):

Para quem controla: É preciso enfrentar o medo do abandono que gera a necessidade de domínio. O amor real não controla; ele liberta. É necessário aceitar que o outro é um ser independente, com defeitos e virtudes que não estão sob sua jurisdição.

Para quem é controlado: O despertar exige coragem para sustentar a própria verdade, mesmo diante da fúria ou do choro do outro. É o fim da “paz comprada” pelo preço da própria alma.

Para ambos: O lar deve voltar a ser o lugar da Segurança Emocional. Isso significa que a vulnerabilidade do parceiro nunca deve ser usada como munição em uma discussão.

O casamento não é um contrato de servidão, mas um Pacto de Pobreza Mútua. Somos dois seres imperfeitos, dependentes da Graça, que decidem caminhar juntos. Se um domina e o outro se anula, não há casamento; há um cativeiro. A cura começa quando o “sim” de um não significa o desaparecimento do “eu” do outro, mas o nascimento de um “nós” fundamentado na verdade e no respeito incondicional.

Dr. Fernando Tadeu Barduzzi Tavares

Psicoterapeuta e Teólogo

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