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O Casamento é um Mal Necessário?

O Casamento é um Mal Necessário?

Muitas vezes eu escuto pessoas dizerem que o casamento é um “mal necessário”. E, sinceramente, quando alguém fala isso, eu penso que talvez essa pessoa esteja olhando para o casamento através das suas dores, das suas decepções ou das experiências difíceis que viveu quando criança vendo o casamento de seus pais, ou em seu relacionamento atual.
Mas seria justo dizer que o casamento é um mal apenas porque alguns relacionamentos foram dolorosos? Seria como afirmar que a medicina é um mal necessário porque alguns tratamentos doem. O sofrimento pode fazer parte da experiência, mas ele não define a essência daquilo que estamos vivendo.
Como psicoterapeuta de casais, posso dizer que a maior parte dos problemas que encontro não nasce do casamento em si. O sofrimento normalmente surge das feridas emocionais que cada pessoa carrega, das expectativas irreais, da dificuldade de dialogar, da imaturidade afetiva ou da incapacidade de lidar com os conflitos de maneira saudável.
Quando um casal aprende a conversar de verdade, a escutar sem atacar, a compreender os sentimentos um do outro e a construir uma intimidade segura, o casamento deixa de ser um lugar de sofrimento e passa a ser um espaço extraordinário de crescimento.
O psiquiatra e psicoterapeuta M. Scott Peck dizia que amar é desejar e promover o crescimento do outro e o próprio crescimento. E eu gosto muito dessa definição, porque ela nos ajuda a entender que o casamento não é um peso a ser carregado, mas uma verdadeira escola de amadurecimento. É na convivência diária que aprendemos a ser mais pacientes, mais generosos, mais humildes e mais capazes de amar.
O renomado psicólogo John Gottman, que estudou milhares de casais ao longo de décadas, chegou a uma conclusão muito interessante: os casamentos felizes não são aqueles que não têm conflitos. Eles têm conflitos como qualquer outro. A diferença é que aprenderam a lidar com eles de forma saudável.
Ou seja, o problema não está nas diferenças. O problema está na maneira como lidamos com elas.
Também a filosofia nos ajuda a compreender isso. Aristóteles dizia que o ser humano é naturalmente voltado para os relacionamentos. Ninguém se realiza plenamente sozinho. Todos nós temos necessidade de pertencimento, de amizade, de comunhão e de amor. Quando vivido de forma madura, o casamento responde a esse desejo profundo do coração humano.
E, como teólogo, vejo algo ainda mais belo.
A tradição cristã nunca considerou o matrimônio um mal necessário. Desde as primeiras páginas da Bíblia, ele é apresentado como um dom. Quando o livro do Gênesis afirma que “não é bom que o homem esteja só”, a mensagem é muito clara: o problema não é a comunhão; o problema é a solidão. O outro não aparece como um fardo, mas como um presente.
São João Paulo II ensinava que a pessoa humana encontra sua realização quando faz de si mesma um dom para os outros. E o matrimônio é uma das formas mais concretas de viver essa vocação ao amor.
Isso acontece nos grandes momentos da vida, mas também nos pequenos gestos do dia a dia. No café preparado pela manhã. Na mensagem enviada durante o trabalho. Na conversa depois de um dia difícil. No abraço silencioso quando faltam palavras. No cuidado durante uma enfermidade. Na presença fiel ao longo dos anos.
São justamente esses pequenos gestos que, somados, constroem uma história capaz de sustentar uma vida inteira.
Por isso, eu não vejo o casamento como um mal necessário. Vejo como uma oportunidade extraordinária de crescimento humano, afetivo e espiritual.
O casamento não elimina os desafios da vida. Mas oferece a duas pessoas a possibilidade de enfrentá-los juntas.
Quando é vivido com maturidade, compromisso e amor, ele não diminui ninguém. Pelo contrário: ajuda cada pessoa a se tornar melhor.
No fundo, o casamento é a bela aventura de transformar, dia após dia, o “eu” e o “tu” em um verdadeiro “nós”.

Dr. Fernando Tadeu Barudzzi Tavares

Psicoterapeuta de Casais e Teólogo

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